Grama ou Gramadeira

Ficha Técnica

"Depois de bem seco e ásperos os caules o linho vai a gramar.

A grama era outra das ferramentas indispensável na preparação das fibras do linho. Este utensílio é corrente no sul do país – Beira Baixa, Alentejo e Algarve –  sendo praticamente desconhecida na restante área do continente. E ocorre nas ilhas da Madeira e Açores.

Composta por um galho de madeira, na generalidade com duas pernadas (muitas vezes escolhiam galhos com dois ramos numa das extremidades em feitio de forcalha ou então adaptadas), consistentes (sem âmago, como por exemplo: til, barbuzano, pau branco, vinhático, castanho, nespereira, faia, laranjeira, etc.), com um ou mais rasgos em forma de V aberto ao comprimento do gramilho (tem a forma de uma alavanca - usavam de um até quatro conforme o comprimento do pau, articulados por uma das extremidades num dos topos do rasgo, amparados por uma cavilha de madeira ou ferro e com uma mãozeira no seu término).

Se as pernadas fossem em sentido longitudinal, havia a necessidade de arranjar um suporte para sustentá-las, enquanto a outra extremidade era geralmente colocada em cima de uma parede. Se fossem perpendiculares, as mesmas faziam de pernas e, por sua vez, do outro lado apoiava-se num muro (entre 55 a 60 cm de altura).

O gramilho era manejado com a mão direita. A mão esquerda empunhava uma mancheia, maúça, ou então gavela de linho (conforme as usanças das localidades) e pousava-se sobre o rasgo. Com o gramilho davam-se sucessivas pancadas rápidas na mancheia (ao mesmo tempo que esta era puxada) voltando-se, ora de um lado, ora de outro, de modo que a ser trilhada de lés a lés, soltando-se os tomentos e as fibras mais frágeis e curtas, ficando o filamento pronto para os subsequentes processamentos.

As gramadeiras eram as mulheres encarregues da gramagem do linho. Na altura da azáfama, muitas delas eram contratadas como jornaleiras para exercerem essa função. Num estudo realizado em 1863 por Francisco da Paula Campos Oliveira, editado pela Repartição de Pesos e Medidas: Informações para a Estatistica IndustrialDistritos de Leiria e Funchal houve alguns concelhos e freguesias do Arquipélago da Madeira, os quais consideraram esta profissão cíclica tão importante como as do quotidiano, para as referidas estatísticas. Esse trabalho foi de suma importância para o nosso estudo, principalmente para os concelhos e freguesias em que as informações foram extremamente escassas ou inexistentes.

Excetuando o município do Funchal e as freguesias do Caniço, Camacha, Gaula, Caniçal, Câmara de Lobos, Quinta Grande e Paul do Mar (não encontramos referências a este apetrecho do linho - tanto na recolha de arquivo como a de campo), para os restantes concelhos e paróquias da região foi, sem dúvida, uma das ferramentas indispensáveis na confeção do linho."

FERNANDES, Danilo José,

As Ferramentas do Linho e da Lã – O ADN do Povoamento Rural da Madeira

Edição Grupo de Folclore e Etnográfico da Boa Nova, 2016

pp.57-58